O lugar sou eu
Um mesmo lugar pode despertar sensações e impressões absolutamente contraditórias em visitas diferentes - ainda bem.
Tive experiências curiosas com algumas cidades, tanto no Brasil quanto no exterior. Casos em que na primeira vez achei o destino meio NHÉ e, ao visitá-lo pelo segunda vez, de repente achei UAU. Tenho uma lista deles.
Tem lugar que não é mesmo a nossa praia e nunca vai ser - fato. Há alguns para os quais também não faço questão nenhuma de voltar. Cada um, cada um, o que seria do azul se todos só gostassem do amarelo etc.
Mas sempre achei interessante como um mesmo lugar pode nos despertar sensações e impressões tão diferentes, tão contraditórias, em visitas distintas.
É claro que os lugares também mudam ao longo do tempo (para o bem ou para o mal...). E que também há uma enooorme diferença entre conhecer um lugar num dia em que está absurdamente lotado ou num outro, em que está vazio e tranquilo; ou visitá-lo num dia ensolarado ou em um outro, chuvoso e sem graça.
Mas sempre tive bem clara a noção de que a maior responsabilidade por mudar minha impressão sobre os lugares em visitas distintas era muito mais minha que de qualquer clima ou fluxo turístico. No fundo, são lugares que eu passei a ver de uma forma diferente porque, bem provavelmente, me pegaram em um outro momento, outra vibe, outro humor.
Este ano conheci um pouco da obra de Maria Lídia Magliani. Já ouviu falar? Pois é, eu também demorei tudo isso para ser apresentada a ela. Maria Lídia foi uma artista gaúcha irreverente e talentosa, que fazia ilustrações, gravuras, pinturas. Atuou também no teatro e flertou bastante com a literatura; inclusive era muito próxima de Caio Fernando Abreu (que, dizem, tinha um super crush nela).
Pois foi justamente a prosa de Magliani que me pegou, e é por isso que ela entrou aqui nesse texto. Porque ela escreveu uns trechos que têm muito a ver com essa minha relação com o mundo e com as pessoas dos lugares que visito, como:
“costumo ignorar as fronteiras, elas não se formam na minha cabeça”.
Ela tem uns trechinhos de prosa bem poética também, que eu amo, como:
“sou natural de todas as estrelas que posso ver e minha curiosidade é conhecer o outro lado delas”.
Conhecer o outro lado delas. Acho que a nossa base, a nossa essência como viajante é a curiosidade.
Deus me livre de um dia deixar de me interessar pelo jeito de pensar, de viver, de comer, de falar, de festejar dos outros lugares. De não buscar respostas para entender por que aquele rio secou, por que não se pode mais chegar àquele istmo, como aquela planície se formou ou como aquela civilização era tão desenvolvida com tão parcos recursos. Se fosse pra rodar a cidade, o país ou o mundo, ver tudo e voltar pra casa do mesmo jeitinho que eu fui, acho que era melhor nem ter saído de casa...
Por outro lado, voltar pra casa me faz muito, muito bem. Não acho que voltar para casa é melhor que viajar nem sou uma Dorothy achando ingenuamente que “there is no place like home”; mas jamais poderia ser de fato nômade.
Gosto de fazer viagens bem longas quando posso, “dei a volta ao mundo” durante quase dois meses em 2024, “morei fora” por um tempinho em diferentes países entre 2009 e 2015. Tenho amigos espalhados pelo mundo e até uma parte muito importante da família também. Mas ter uma casa para voltar (e muito orgulho das minhas raízes) pra mim é essencial.
Voltando à Magliani (desculpem, viajei aqui; eu divago muito mesmo - isso quando não entro numa rede ou buscador atrás de algo e esqueço da vida rs), a frase dela que mais me marcou é uma que vai de encontro com tudo isso que eu tô falando aqui (meio desordenadamente, eu sei, sorry) :
“o lugar sou eu, em qualquer parte; é em mim que as coisas acontecem ou esquecem de acontecer”.
O falecimento do meu pai, na véspera de um dia dos pais, me doeu tanto em Campinas quanto em Paris. O coração partido também. E a mesma coisa vale para os momentos felizes, que sempre podem ser tão intensos e memoráveis em casa quanto do outro lado do planeta. Porque acontecem em mim mais que em qualquer outro lugar onde eu esteja.
Os lugares somos nós, bem disse a artista. Não existem impressões e sensações sobre lugares que não estejam diretamente atrelados ao que nós somos, naquele momento. Até a beleza natural de um lugar pode ser discutível dependendo de quem somos e como estamos (lembram das “reviews” ruins sobre as Cataratas do Iguaçu que apareceram esse ano, com gente que tinha achado que o lugar era “overrated”, que era só “muita água”? rs).
Pois que maravilha poder dar uma segunda, terceira ou quarta chance a lugares que ainda podem me cativar tão irrevogavelmente. Do lado de cá, estou sempre pronta para que um lugar que inicialmente não me conquistou de repente me confunda, me transborde, me desminta descaradamente. E você?
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Se você quer ler coisas minhas publicadas em outros meios, algumas delas vêem parar aqui.






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Que delícia ler esses textos mais livres, sem amarras editoriais!!